O estudo: quem foi acompanhado e como
O trabalho "Day trading for a living?" (em português, "Day trade para viver?") foi escrito por Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti e publicado como Texto para Discussão nº 525 da Escola de Economia de São Paulo da FGV, em 2020, com versão revisada de junho de 2020.
Os autores usaram uma base de dados fornecida pela CVM com todas as operações de pessoas físicas no contrato futuro mini de Ibovespa. Eles separaram as 19.646 pessoas que fizeram day trade nesse contrato pela primeira vez entre 2013 e 2015 e acompanharam o que aconteceu com cada uma. O mercado escolhido não é pequeno: segundo o estudo, o mercado brasileiro de futuros de índice era o terceiro maior do mundo em volume.
O foco foi em quem persistiu: as pessoas que operaram em mais de 300 pregões, mais de um ano de bolsa. A ideia é responder a uma pergunta comum em propagandas de cursos — se quem se dedica por bastante tempo consegue viver disso.
Os números principais
| Resultado | Número |
|---|---|
| Pessoas que começaram a fazer day trade no mini índice entre 2013 e 2015 | 19.646 |
| Dessas, as que persistiram por mais de 300 pregões | 1.551 (7,9%) |
| Entre as que persistiram, as que perderam dinheiro | 97% |
| Entre as que persistiram, as que ganharam mais que um salário mínimo (por dia operado) | 1,1% (17 pessoas) |
| Entre as que persistiram, as que ganharam mais que o salário inicial de um caixa de banco | 0,5% (8 pessoas), com a referência de US$ 54 por dia; o resumo do texto para discussão arredonda para 0,4% |
| Maior ganho médio individual encontrado | US$ 310 por dia, com desvio padrão de US$ 2.560 |
O último número ajuda a entender o risco: mesmo a pessoa com o maior ganho médio teve uma oscilação diária (desvio padrão) cerca de oito vezes maior que esse ganho. Em outras palavras, até o resultado mais alto da amostra veio com dias de perda grande.
Persistir não fez diferença
Uma explicação comum para perdas no começo é a falta de experiência. O estudo testou essa ideia e não encontrou evidência de aprendizado: o desempenho das pessoas não melhorou de forma consistente com o número de dias operados.
Os autores relacionam o resultado à concorrência. Do outro lado das ordens de pessoas físicas estão, com frequência, empresas de negociação de alta frequência (HFT, na sigla em inglês), com computadores próximos à bolsa, custos muito menores e velocidade de execução que uma pessoa não alcança. A conclusão do trabalho é que, para um indivíduo, viver de day trade nesse mercado é praticamente impossível.
Esse tema reaparece no guia de scalping, a modalidade que mais depende de velocidade.
Outros estudos chegam a resultados parecidos
- Brasil, versão preliminar de 2019: antes da versão final, Chague e Giovannetti divulgaram, em março de 2019, um primeiro estudo feito a pedido da CVM com a mesma base de dados (operações de 2012 a 2017). Com o critério usado naquela versão, 91% das cerca de 1,5 mil pessoas que persistiram por mais de 300 pregões no mini índice tiveram prejuízo — perto de 9 em cada 10. A versão revisada, de 2020, chegou aos 97% citados acima.
- Taiwan: os economistas Brad Barber, Yi-Tsung Lee, Yu-Jane Liu e Terrance Odean analisaram todos os negócios da bolsa de Taiwan ao longo de vários anos e concluíram que menos de 1% dos day traders conseguia ter retorno acima do normal de forma previsível depois das taxas ("The cross-section of speculator skill", Journal of Financial Markets, 2014). Em outro trabalho, com Ke Zhang ("Learning, fast or slow", Review of Asset Pricing Studies, 2020), o grupo também não encontrou o aprendizado que justificaria insistir: a maior parte do volume vinha de quem já tinha histórico de perdas.
Os dados de países diferentes apontam na mesma direção: a maior parte das pessoas que faz day trade com regularidade termina com prejuízo. Vale lembrar que o estudo da FGV mede o resultado antes do imposto e sem contar gastos com cursos e plataformas, que pioram a conta.
A conta do “salário”: quanto o mercado precisaria render
Para dar escala ao assunto, veja o que seria necessário para ter R$ 5.000,00 líquidos por mês operando 5 contratos de mini índice. A conta não diz se isso é possível nem é uma meta: só traduz o valor em pontos.
R$ 5.000,00 LÍQUIDOS POR MÊS · 5 CONTRATOS DE WIN
- Antes do IR de 20%: R$ 5.000,00 ÷ 0,80 = R$ 6.250,00
- Por pregão (21 no mês): R$ 297,62
- Mais custos supostos de R$ 50,00 por dia: R$ 347,62
- Em pontos: R$ 347,62 ÷ (R$ 0,20 × 5) = 348 pontos líquidos por dia
- Todos os dias, em média, descontando os dias de perda
Custos e número de contratos são suposições para a conta. Teste os seus números na calculadora de risco-retorno.
Além do valor, há a variação: para ter essa média, a pessoa passa por meses negativos, e a sequência de perdas pode ser longa. A calculadora de risco-retorno mostra a expectativa por operação, a sequência de perdas provável e a queda máxima da conta para uma taxa de acerto e um payoff que você digitar. Para comparar com um investimento sem risco de mercado, veja o CDI de hoje.
O que esses números não dizem
- O estudo cobre pessoas que começaram entre 2013 e 2015, no mini índice. Custos, tecnologia e regras mudaram desde então.
- Ele mede o que aconteceu com um grupo, não o que vai acontecer com uma pessoa específica.
- Não trata de swing trade nem de investimento de longo prazo, que têm outros custos e riscos.
- Resultados passados, bons ou ruins, não garantem resultados futuros.
Quem opera pode acompanhar os próprios números com honestidade: registrar cada operação, com custos, na planilha de day trade, e calcular o imposto do mês na calculadora de imposto. Promessas de "renda diária" com robôs costumam ignorar esses dados; veja o que a CVM diz em robô trader funciona?.
Perguntas frequentes
É possível viver de day trade?+
Os dados brasileiros mostram que é muito raro. No estudo da FGV com dados da CVM, entre as pessoas que fizeram day trade no mini índice por mais de 300 pregões, 97% perderam dinheiro e só 1,1% ganharam mais que um salário mínimo por dia operado.
Qual a porcentagem de day traders que perde dinheiro?+
No estudo “Day trading for a living?” (Chague, De-Losso e Giovannetti, FGV, 2020), 97% das pessoas que persistiram por mais de 300 pregões no mini índice tiveram prejuízo. A amostra foram as 19.646 pessoas que começaram a fazer day trade nesse contrato entre 2013 e 2015.
Quanto ganha um day trader por mês?+
Não há um valor típico, porque não é salário: o resultado varia e, para a grande maioria, é negativo. Para ter R$ 5 mil líquidos por mês com 5 contratos de mini índice, por exemplo, seria preciso ganhar em média cerca de 348 pontos líquidos por pregão, já considerando IR e custos supostos de R$ 50 por dia.
Com mais experiência o day trader passa a ganhar?+
O estudo da FGV não encontrou evidência de aprendizado: o desempenho de quem continuou operando não melhorou de forma consistente com o tempo. Um estudo com dados completos da bolsa de Taiwan encontrou menos de 1% de day traders com retorno acima do normal de forma previsível depois das taxas.
Precisa de registro na CVM para fazer day trade?+
Não para operar o próprio dinheiro por meio de uma corretora. O registro é exigido de quem recomenda operações a terceiros, como analistas e consultores. Quem vende sinais, calls ou cópia de operações sem registro atua de forma irregular.
